Porque passamos anos a agradar

Porque passamos anos a agradar
Um momento antes de parar de agradar.

A armadilha invisível de viver para a aprovação dos outros

Começa cedo, tão cedo que já não sabemos quando começou. Um sorriso de aprovação, um elogio bem colocado, uma sensação breve de pertença. O corpo aprende antes da mente: isto é seguro, isto é aceite, isto é amor. A partir daí, sem regras escritas e sem contrato assinado, entramos num jogo simples e silencioso — não desiludir.

Ser a filha fácil. A aluna responsável. A amiga presente. A colega fiável. A mulher que aguenta. Cada papel vem acompanhado de expectativas subtis, mas consistentes, e vamos cumprindo todas com tal mestria que deixamos de perceber que estamos a desempenhar um papel. Até ao dia em que olhamos para trás e percebemos que passaram quinze anos. Ou vinte. Ou mais.

Não foi erro. Foi competência. Fizemos tudo “bem”. O problema é que esse “bem” nunca foi definido por nós. Foi moldado pelas necessidades alheias, pelas recompensas externas, pela tranquilidade dos outros. Para caber nesses lugares, fomos deslocando o nosso centro, reduzindo desejos, adiando vontades, aprendendo a ocupar pouco espaço emocional.

Agradar torna-se automático. Perguntar “o que quero?” começa a soar desconfortável, quase egoísta. As escolhas deixam de ser escolhas e passam a ser adaptações. Restaurante, carreira, relações, decisões grandes e pequenas — tudo atravessado pela mesma pergunta silenciosa: o que vão pensar de mim?

Há um nome para isto: viver sob aprovação. Não é uma prisão violenta, é uma prisão funcional. Não há grades visíveis nem guardas. Há hábito, medo de conflito, e uma confusão profunda entre ser amada e ser necessária. Enquanto serves, entregas e não incomodas, sentes-te segura. Mesmo quando essa segurança te custa a liberdade de existir inteira.

O problema não é querer amor. É pagar por ele com anulação. Dizer “sim” para evitar tensão. Engolir o que sentes para manter a paz. Aceitar menos do que mereces porque “pelo menos é alguma coisa”. Adiar os teus sonhos durante anos para sustentar os sonhos dos outros.

E depois vem o cansaço.

Não é um cansaço físico. É um desgaste existencial. O peso de manter uma versão funcional de ti que toda a gente conhece, mas que não é verdadeira. O medo de descobrir que, se deixares de servir, algumas pessoas não te amavam — apenas dependiam de ti.

Acordar deste padrão não é um momento cinematográfico. É um processo incómodo e gradual. Pequenos “nãos” ditos com culpa. Escolhas feitas sem justificação. Decepções provocadas — e sobrevividas. Cada fissura prova a mesma coisa: o mundo não colapsa quando deixas de agradar.

É assim que começa uma vida mais tua. Não necessariamente mais fácil. Nem mais aplaudida. Mas habitável. Inteira. Sustentável.

Quinze anos é muito tempo para viver sob aprovação.
Mas não é tarde para parar.

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Se estas palavras se mexeram em ti, há sete histórias à tua espera.

Não são manuais — são espelhos.

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