O momento em que percebes que não escolheste nada

O momento em que percebes que não escolheste nada
Às vezes não é falta de caminho.É falta de decisão.

Quando a vida que tens não foi decidida — foi herdada

Há um momento, e ele chega de formas diferentes para cada pessoa, em que olhas para a tua vida e percebes, com uma clareza quase cruel, que não escolheste nada daquilo. Não de verdade. Não da forma como se escolhe quando se sabe que se está a escolher.

Pode acontecer num domingo de manhã, com a casa em silêncio, sentada à mesa da cozinha, diante de uma chávena de café que já arrefeceu. Pode acontecer no meio de uma reunião de trabalho, enquanto alguém fala de metas e tu te perguntas porque ainda estás ali. Pode acontecer no carro, a caminho de mais uma coisa que não te apetece fazer, ou à noite, quando todos dormem e tu ficas acordada a olhar para o tecto.

O momento chega. E quando chega, traz consigo uma pergunta incómoda: como é que eu vim parar aqui?

Não é que a tua vida seja má. Pelo contrário, pode até ser invejável vista de fora. A casa, o emprego, a família, as férias no verão. Mas por dentro, sentes que foste levada por uma corrente que nunca questionaste. Estudaste o que era suposto estudar. Casaste quando era suposto casar. Tiveste filhos porque era o passo seguinte. Aceitaste o emprego porque apareceu. E assim, quase sem perceberes, foste montando uma vida inteira feita de respostas automáticas.

A palavra certa para isto não é erro. É inércia. É viver por defeito, seguir o caminho de menor resistência, evitar o desconforto de perguntar: mas eu quero isto? A pergunta assusta porque a resposta pode assustar ainda mais. E assim, adia-se. Durante anos. Até que o corpo, ou a alma, ou os dois, começam a protestar.

O que dói não é ter feito escolhas erradas. O que dói é perceber que não foram escolhas de todo. Foram reacções. Reacções ao medo de desiludir, ao medo de ficar para trás, ao medo de não saber quem serias se não seguisses o guião. E agora, anos depois, sentes que estás a viver a vida de outra pessoa. Uma pessoa que se parece contigo, que tem o teu nome, que cumpre as tuas obrigações, mas que não és tu. Pelo menos, não a tu que ficou por descobrir.

Há quem chegue aqui e entre em crise. Mude tudo de uma vez, abandone o que tinha, tente recomeçar do zero. Mas a maioria não faz isso. A maioria fica. Não por cobardia, mas porque percebe que o problema não está apenas nas circunstâncias externas. Está na forma como se relaciona consigo mesma. Está na ausência de uma voz interior que diga: isto sou eu, isto quero eu, isto escolho eu.

Recuperar essa voz leva tempo. Não acontece com uma decisão dramática nem com uma lista de objectivos. Acontece aos poucos, em pequenos actos de honestidade. Em momentos em que te permites sentir o que sentes, sem te julgares. Em escolhas minúsculas, o que comes, o que vestes, como passas uma hora livre, feitas não por hábito, mas por atenção.

Perceber que não escolheste nada não é o fim. É, na verdade, o princípio de uma vida mais consciente. Não mais fácil, não mais perfeita, mas mais tua. Uma vida em que, finalmente, tens voz. E em que essa voz conta.

───────────────────────────────────

Se estas palavras se mexeram em ti, há sete histórias à tua espera.

Não são manuais — são espelhos.

→ Conhece Os Sete Véus em seteecos.com