A vida que funciona mas não convence

A vida que funciona mas não convence
Quando o dia está completo e tu não estás.

Há vidas que funcionam. Cumprem os prazos, pagam as contas, recebem os parabéns nas alturas certas. Há rotinas que se encaixam, relações que se mantêm, carreiras que avançam com a previsibilidade de quem faz tudo bem. E no entanto, quando a casa fica em silêncio — quando o telemóvel pousa e o dia termina — surge uma pergunta que não deveria existir: porque é que isto não chega?

Não é ingratidão. Não é depressão, pelo menos não no sentido clínico da palavra. É algo mais subtil, mais difícil de nomear, e por isso mais fácil de ignorar. É a sensação de que a vida que construíste não te pertence — ou, pior ainda, que te pertence demasiado, porque foste tu que a montaste peça a peça, sem nunca perguntar se era isto que querias.

A maioria das pessoas que vivem assim não se queixa. Aliás, queixar-se de quê? Há tanta gente com problemas reais, com dificuldades visíveis, com razões concretas para sofrer. E tu tens saúde, tens trabalho, tens pessoas que te amam. Como é que se explica a alguém que, apesar de tudo isso, há manhãs em que acordas com uma espécie de peso sem nome — não nos ombros, mas algures entre o peito e a garganta — que te faz hesitar antes de te levantares?

Chamamos-lhe cansaço. Chamamos-lhe stress. Chamamos-lhe "fase". Mas a verdade é que esse peso tem uma origem mais profunda: a distância entre quem és e quem tens sido. Entre o que sentes e o que mostras. Entre o que precisas e o que te permites pedir.

A vida que funciona mas não convence é a vida de quem aprendeu cedo que o valor próprio se mede pela utilidade. Que ser boa filha, boa profissional, boa mãe, boa amiga era mais importante do que ser apenas — inteiramente — si mesma. E assim, foste construindo uma versão de ti que cabia nas expectativas dos outros, que não incomodava, que não exigia, que não reclamava.

Funcionava. Funciona ainda. Mas a que custo?

Há um momento, normalmente silencioso, em que percebes que tens passado anos a responder a perguntas que ninguém te fez. A cumprir promessas que nunca fizeste. A carregar responsabilidades que não te pertencem — e a chamar a isso amor, dever, maturidade.

Não é que estejas a viver mal. É que não tens a certeza de que estejas a viver. Há uma diferença, e ela é brutal.

Este não é um artigo sobre como mudar a tua vida. Não há passos, não há exercícios, não há promessas de transformação em trinta dias. Este é apenas um espelho — colocado aqui para que, se te reconheceres, saibas que não estás sozinha. Que há outras mulheres a sentir exactamente isto, mesmo sem conseguirem dizer em voz alta.

Talvez esse seja o primeiro passo: não mudar, mas ver. Não resolver, mas reconhecer. Permitir-te, pela primeira vez em muito tempo, a honestidade de admitir que algo não está bem — mesmo que tudo pareça estar.

A vida que funciona mas não convence é uma vida que pede atenção. Não urgência, não drama — apenas escuta. E tu mereces dar-te isso.

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Se estas palavras se mexeram em ti, há sete histórias à tua espera.

Não são manuais — são espelhos.

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